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Fundo Soberano ultrapassa 116 milhões USD impulsionado por receitas do gás

O Fundo Soberano de Moçambique ultrapassou os 116 milhões de dólares norte-americanos no início de Janeiro de 2026, reflectindo novas entradas de capital provenientes das receitas do gás natural e a valorização do portefólio sob gestão do Banco de Moçambique. O desempenho confirma o papel do fundo como instrumento estratégico de estabilização macroeconómica e de poupança intergeracional.

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O Fundo Soberano de Moçambique (FSM) ultrapassou os 116 milhões de dólares norte-americanos, consolidando-se como um instrumento emergente de gestão fiscal das receitas do gás natural e de amortecimento da volatilidade orçamental associada ao sector extractivo.

Segundo dados oficiais do Banco de Moçambique, o valor de mercado do fundo fixou-se em USD 116.423.471,58 (cerca de MZN 7.366.113.046,87) a 7 de Janeiro de 2026, o que representa um crescimento próximo de 6% face ao final de Dezembro, reflectindo sobretudo novas entradas de capital público e a valorização corrente do portfólio financeiro sob gestão do banco central.

A evolução do FSM foi impulsionada por uma nova transferência do Estado, realizada a 6 de Janeiro, no valor de USD 6,159 milhões, que se somou à capitalização inicial efectuada em Dezembro, segundo informação compilada pela Lusa.

O desempenho do fundo está directamente associado à trajectória das receitas do Gás Natural Liquefeito (GNL), que entre Novembro de 2022 e Outubro de 2025 totalizaram USD 239.104.607,44, constituindo a principal fonte de financiamento do mecanismo soberano.

Repartição das receitas e impacto orçamental

De acordo com o quadro legal em vigor, as receitas do gás foram repartidas entre o Orçamento do Estado e a Conta Transitória do Fundo Soberano, num modelo concebido para equilibrar necessidades fiscais imediatas e poupança pública de médio e longo prazo.

Entre 2022 e Outubro de 2025:

  • USD 33,65 milhões foram canalizados directamente para o Orçamento do Estado;

  • USD 205,46 milhões ingressaram na Conta Transitória do FSM.

No mesmo período:

  • USD 103,03 milhões foram transferidos da Conta Transitória para financiar o Orçamento do Estado;

  • USD 102,42 milhões foram efectivamente acumulados no Fundo Soberano.

Este mecanismo permite suavizar o impacto das receitas extractivas sobre a execução orçamental, reduzindo riscos de pró-ciclicidade fiscal.

Âncora de estabilização fiscal

Nos termos da Lei n.º 01/2024, 40% das receitas do petróleo e do gás natural devem ser afectos ao Fundo Soberano, ficando os restantes 60% destinados ao Orçamento do Estado. O FSM assume, assim, uma função de estabilizador fiscal, mitigando a exposição das finanças públicas à volatilidade dos preços internacionais do GNL.

A acumulação gradual de activos financeiros visa reforçar a previsibilidade orçamental, criar margens de manobra em cenários adversos e apoiar a sustentabilidade das finanças públicas no longo prazo.

A consolidação do FSM ocorre num contexto de expansão gradual da produção de gás na bacia do Rovuma, em Cabo Delgado, onde Moçambique dispõe de três megaprojectos aprovados. A Área 4, operada pela Eni, produz desde 2022 através da plataforma Coral Sul, estando o projecto Coral Norte previsto para iniciar operações em 2028.

Projecções oficiais indicam que as receitas anuais do gás natural poderão atingir cerca de USD 6.000 milhões na década de 2040, o que reforça o papel do Fundo Soberano como instrumento central da política fiscal e de gestão intergeracional da riqueza.