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Riscos fiscais nas autarquias exigem reforço da disciplina orçamental

O Relatório de Análise de Riscos Fiscais das Autarquias Locais, elaborado pelo Ministério das Finanças, revela níveis elevados de vulnerabilidade fiscal em grande parte dos municípios do país. O documento aponta fragilidades estruturais na gestão financeira municipal e defende o reforço da disciplina orçamental, do controlo da despesa e da sustentabilidade das finanças locais como condição para a estabilidade macrofiscal.

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O agravamento dos riscos fiscais nas autarquias locais voltou a expor fragilidades estruturais na gestão financeira municipal, colocando em evidência a necessidade de reforço da disciplina orçamental, do controlo da despesa e da sustentabilidade das finanças locais, de acordo com o Relatório de Análise de Riscos Fiscais das Autarquias Locais, elaborado pelo Ministério das Finanças.

O documento conclui que uma parte significativa das autarquias moçambicanas apresenta níveis elevados de vulnerabilidade fiscal, com impacto potencial sobre a prestação de serviços públicos, a credibilidade financeira das instituições locais e a estabilidade das contas públicas nacionais.

Elevada exposição ao risco fiscal

Segundo o relatório, 24 das 52 autarquias analisadas encontram-se classificadas em situação de alto risco fiscal, enquanto apenas duas apresentam baixo risco, evidenciando um quadro generalizado de fragilidade financeira ao nível local.

Os principais factores associados a este risco incluem baixa capacidade de arrecadação de receitas próprias, forte dependência de transferências do Orçamento do Estado e pressão crescente da despesa corrente, sobretudo com pessoal.

Em várias autarquias, a receita própria cobre menos de 40% da despesa total, limitando a autonomia financeira e aumentando a exposição a choques orçamentais.

Pressão da despesa com pessoal

Um dos elementos mais críticos identificados no relatório é o peso da despesa com salários e remunerações. Em cerca de 71% das autarquias, a massa salarial ultrapassa os limites considerados sustentáveis, absorvendo grande parte da receita própria disponível.

Esta estrutura rígida da despesa reduz a capacidade de investimento municipal em infra-estruturas, saneamento, mercados, vias urbanas e serviços básicos, comprometendo os objectivos de desenvolvimento urbano e social.

O relatório aponta igualmente para um nível elevado de endividamento autárquico, com o stock da dívida total a representar cerca de 95% da receita própria agregada, sendo a maior parte constituída por dívidas a fornecedores e atrasos de pagamento.

As autarquias de maior dimensão económica concentram os montantes mais elevados de dívida, o que aumenta o risco sistémico e a probabilidade de pressão futura sobre o Orçamento do Estado.

Disciplina orçamental como eixo central da mitigação

Face a este cenário, o Ministério das Finanças defende que a sustentabilidade das autarquias depende de um reforço efectivo da disciplina orçamental, assente no cumprimento rigoroso das normas do SISTAFE, na melhoria do planeamento financeiro e no alinhamento entre planos de actividades e disponibilidade de recursos.

Entre as medidas de mitigação recomendadas constam o controlo rigoroso da despesa corrente, a limitação do crescimento da massa salarial, o reforço da fiscalização financeira e a melhoria dos mecanismos de monitoria e reporte.

O relatório sublinha ainda a necessidade de fortalecer a base de receitas próprias das autarquias, através da modernização da administração tributária municipal, da ampliação da base contributiva e da adopção de sistemas electrónicos de cobrança.

A melhoria da transparência orçamental e da prestação de contas é igualmente apontada como condição essencial para reduzir riscos fiscais, reforçar a confiança dos cidadãos e assegurar uma gestão mais responsável dos recursos públicos.

Sustentabilidade autárquica como condição da estabilidade nacional

O Ministério das Finanças alerta que, sem reformas estruturais na gestão financeira municipal, os riscos fiscais das autarquias podem transformar-se num factor de pressão adicional sobre as finanças públicas nacionais, contrariando os objectivos da descentralização e da autonomia local.

O relatório conclui que a consolidação das finanças autárquicas é hoje uma condição indispensável para a estabilidade macrofiscal, exigindo coordenação entre níveis de governação, rigor orçamental e uma cultura de responsabilidade financeira ao nível local.