Moçambique deu um passo decisivo na reforma fiscal ao reunir, a 9 de Dezembro, o Ministério das Finanças e a Confederação das Associações Económicas (CTA) para harmonizar posições sobre o pacote fiscal actualmente em apreciação na Assembleia da República.
A sessão ocorre num momento em que o país procura adaptar o sistema tributário às transformações económicas e tecnológicas, reforçar a arrecadação interna e consolidar a sustentabilidade das finanças públicas.
Carla Loveira: modernização económica obriga a actualizar o sistema fiscal
Na abertura da sessão, a Ministra das Finanças, Carla Loveira, afirmou que a evolução económica e a modernização tecnológica da Administração Tributária exigem actualizações profundas ao enquadramento fiscal do país.
“A modernização em curso exige a actualização e o ajustamento dos principais instrumentos legais do sistema fiscal, de forma a torná-lo mais justo, equilibrado e alinhado às dinâmicas económicas actuais.”
O pacote abrange seis instrumentos centrais — IRPS, IRPC, ISPC, CIVA, ICE e Pauta Aduaneira — constituindo uma das reformas fiscais mais amplas dos últimos anos.
A Ministra sublinhou que as propostas estão alinhadas com o Programa Quinquenal do Governo (PQG) 2025–2029, que prioriza:
reforço da eficiência na arrecadação das receitas;
melhoria da gestão fiscal;
combate à evasão e fraude tributária;
modernização dos mecanismos de cobrança.
“Estas medidas visam garantir maior sustentabilidade das finanças públicas e criar condições para financiar políticas públicas essenciais ao desenvolvimento do país.”
Economia digital passa a integrar o enquadramento fiscal
Um dos pontos centrais do encontro foi a proposta de criar regras específicas para a tributação da economia digital.
A medida pretende enquadrar rendimentos gerados por plataformas online e novas actividades económicas que têm crescido fora dos mecanismos tradicionais de fiscalização, alinhando Moçambique às tendências internacionais de taxação digital.
O Ministério das Finanças clarificou que não haverá imposto sobre transacções realizadas por utilizadores de M-Pesa, M-Kesh ou E-Mola.
A tributação incidirá somente sobre os rendimentos dos agentes, os operadores comerciais que prestam serviços de depósito e levantamento.
A medida pretende:
enquadrar fiscalmente actividades económicas emergentes;
evitar penalizar utilizadores;
proteger a inclusão financeira num país onde as carteiras móveis movimentam centenas de milhares de milhões de meticais por ano.
Eliminação de regimes especiais para reduzir distorções e reforçar justiça fiscal
A reunião abordou também a proposta de eliminação de regimes especiais de tributação, considerados geradores de assimetrias e oportunidades de arbitragem fiscal.
O objectivo é:
reforçar a neutralidade fiscal;
reduzir distorções entre contribuintes;
aumentar a transparência;
promover equidade no esforço tributário.
A proposta inclui ainda a tributação autónoma de mais-valias, ampliando a base fiscal e aumentando previsibilidade nas operações financeiras e patrimoniais.
Sector privado envolvido na construção das reformas
Carla Loveira destacou que o processo deve ser participativo, dada a relevância das reformas para o ambiente de negócios e para a estrutura produtiva.
“Agradecemos a disponibilidade e prontidão da CTA. Este processo deve ser participativo, transparente e orientado para o reforço da economia nacional.”
A sessão permitiu recolher contribuições técnicas do sector privado, que serão integradas na versão final a ser discutida pela Assembleia da República.
Com este pacote, o Governo pretende:
ampliar a base tributária;
mobilizar mais receitas internas;
modernizar a estrutura fiscal num contexto de crescente digitalização;
reforçar a competitividade económica;
sustentar investimentos públicos essenciais.
A modernização tributária surge como pilar para consolidar a estabilidade macroeconómica, apoiar a industrialização e acelerar o crescimento económico, num momento em que Moçambique procura fortalecer a confiança dos investidores e impulsionar a transformação estrutural da economia.