O sistema financeiro moçambicano manteve-se estável, sólido e resiliente no primeiro semestre de 2025, registando um crescimento acumulado de 1,99%, superior aos 1,60% observados no período homólogo de 2024, segundo o Boletim de Estabilidade Financeira – Ano 07, N.º 07, divulgado pelo Banco de Moçambique.
De acordo com a autoridade monetária, o desempenho positivo foi alcançado apesar da prevalência de choques internos e externos, incluindo pressões geopolíticas globais, instabilidade climática e constrangimentos fiscais, confirmando a capacidade de absorção do sistema financeiro nacional.
O Banco de Moçambique destaca que o sector bancário permaneceu estável, com níveis adequados de capitalização, liquidez e rendibilidade. Em Junho de 2025, o rácio de solvabilidade global fixou-se em 25,26%, valor significativamente acima do mínimo regulamentar de 12%, assegurando uma margem confortável para enfrentar desequilíbrios financeiros.
A rendibilidade dos activos (ROA) situou-se em 3,83%, enquanto a rendibilidade dos capitais próprios (ROE)alcançou 15,64%, confirmando um desempenho financeiro positivo, embora inferior ao período homólogo, devido ao aumento das imparidades para crédito.
Crédito em incumprimento recua, mas permanece acima do nível recomendado
A qualidade dos activos apresentou melhorias. O rácio de crédito em incumprimento (NPL) reduziu-se de 9,35% em Dezembro de 2024 para 7,85% em Junho de 2025, reflectindo um ajustamento favorável na carteira de crédito.
Ainda assim, o Banco de Moçambique alerta que o indicador permanece acima do limite internacionalmente recomendado de 5%, exigindo monitoria contínua, sobretudo num contexto de choques climáticos e pressão sobre o rendimento das famílias e empresas.
Os indicadores de liquidez mantiveram-se confortáveis. O rácio de cobertura de liquidez de curto prazo fixou-se em 59,65%, mais do dobro do mínimo regulamentar de 25%.
Paralelamente, o rácio de transformação dos depósitos em crédito reduziu-se para 37,91%, contra 40,90% em Dezembro de 2024, reflectindo um crescimento dos depósitos a um ritmo superior ao do crédito e reforçando a posição de liquidez do sistema.
Sistema bancário continua concentrado nos bancos sistémicos
O relatório indica que a actividade bancária permanece concentrada nos bancos domésticos de importância sistémica (D-SIBs), nomeadamente BCI, BIM e Standard Bank, que, em Junho de 2025, detinham 59,72% dos activos, 63,58% dos depósitos e 54,17% do crédito do sector.
O Índice de Herfindahl-Hirschman manteve-se em níveis que indicam concentração razoável, sem riscos imediatos para a estabilidade financeira.
Os fundos de pensões continuam a desempenhar um papel relevante no Mercado de Valores Mobiliários (MVM), onde passaram a deter 36,52% do valor total dos títulos, um aumento de mais de seis pontos percentuais face a Dezembro de 2024.
Em contraste, o peso dos seus depósitos no sector bancário reduziu-se para 0,36%, evidenciando uma reorientação estratégica para investimentos de médio e longo prazo no mercado de capitais.
Sector de seguros em desaceleração
O sector segurador registou uma redução de 4% na produção global, que se fixou em 10,80 mil milhões de meticaisno primeiro semestre de 2025, influenciada pela diminuição das subscrições nos ramos vida e não vida.
Apesar da desaceleração, o sector continua a desempenhar um papel relevante no financiamento da economia, com crescente exposição a títulos do Tesouro.
O índice de risco sistémico manteve-se no nível moderado (35,42%), inalterado face a Dezembro de 2024. O Banco de Moçambique explica que este comportamento resulta da estabilidade dos riscos de crédito, liquidez e solvência, apesar da manutenção do risco soberano em nível severo, associado ao aumento do endividamento público.
Face ao quadro observado, o Comité de Estabilidade e Inclusão Financeira decidiu manter inalteradas as medidas macroprudenciais, incluindo:
reserva de capital adicional de 2% para D-SIBs;
limite de 100% no rácio loan-to-value (LTV);
limite de 100% no rácio debt-to-income (DTI).
Segundo o Banco de Moçambique, estas medidas continuam adequadas para preservar a estabilidade financeira e mitigar riscos sistémicos no curto e médio prazos.