O olhar económico sobre o futuro de Moçambique.

Mercado financeiro continua dominado por títulos do Estado

O mercado financeiro moçambicano continua fortemente dominado por títulos da dívida pública, reflectindo a centralidade do Estado na absorção da poupança interna. Bancos, fundos de pensões e seguradoras privilegiam Bilhetes e Obrigações do Tesouro pela segurança, previsibilidade e liquidez, contribuindo para a estabilidade do sistema financeiro. Contudo, esta concentração limita a canalização de recursos para o sector produtivo, mantendo o crescimento do crédito privado em níveis moderados. O cenário evidencia um desafio estrutural: diversificar o mercado de capitais e fortalecer instrumentos de financiamento privado para sustentar o crescimento económico.

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O mercado financeiro moçambicano manteve-se fortemente concentrado em títulos da dívida pública no primeiro semestre de 2025, confirmando a predominância do Estado como principal emitente e principal destino da poupança interna, segundo dados do Boletim de Estabilidade Financeira do Banco de Moçambique.

Em Junho de 2025, as Obrigações do Tesouro (OT) representavam 86% da capitalização bolsista total, ligeiramente abaixo dos 87,22% registados em Dezembro de 2024, evidenciando, ainda assim, a persistência do financiamento do Estado através do mercado de capitais interno. Esta estrutura reflecte o peso elevado da dívida pública interna e a centralidade do Tesouro na dinâmica do Mercado de Valores Mobiliários (MVM).

Transacções bolsistas quase totalmente concentradas em dívida pública

O domínio dos títulos do Estado é ainda mais acentuado ao nível da actividade bolsista. No volume total de transacções realizadas em Junho de 2025, as Obrigações do Tesouro concentraram 98,84% das operações, face a 99,80% em Dezembro de 2024, confirmando a fraca utilização dos segmentos de acções e de obrigações corporativas como instrumentos de financiamento da economia.

Este padrão demonstra que o mercado de capitais continua a desempenhar um papel limitado no financiamento directo das empresas, mantendo-se predominantemente orientado para a colocação de dívida pública.

A actividade do MVM é sustentada maioritariamente por instituições do sistema financeiro. No primeiro semestre de 2025, os fundos de pensões detinham 36,52% do valor total das aplicações, acima dos 30,47% registados em Dezembro de 2024. O sector bancário representava 27,88%, ligeiramente acima dos 27,45% do período anterior, enquanto o sector segurador concentrava 1,48%, face a 0,77% em Dezembro de 2024.

Os restantes 34,13% das aplicações estavam distribuídos por investidores de outra natureza, uma redução significativa face aos 41,31% observados no final de 2024, o que reforça a crescente institucionalização do mercado e a preferência por activos de menor risco.

Capitalização bolsista recua nas OT, mas cresce nos segmentos privados

No período em análise, a capitalização bolsista do segmento das Obrigações do Tesouro registou uma redução de 0,83%, equivalente a 1,45 mil milhões de meticais, resultado do vencimento de títulos superior ao volume de novas emissões, o que originou uma emissão líquida negativa de 2,10 mil milhões de meticais.

Este efeito foi parcialmente compensado por oscilações positivas de preços, com um impacto favorável de 0,67 mil milhões de meticais na capitalização das OT.

Em contrapartida, os segmentos de financiamento privado apresentaram evolução positiva. A capitalização bolsista das obrigações corporativas aumentou 11,29%, correspondente a 0,71 mil milhões de meticais, impulsionada por novas emissões realizadas por empresas para responder às suas necessidades de financiamento. O mercado de acções registou igualmente um crescimento de 0,9%, cerca de 0,17 mil milhões de meticais, sustentado pela valorização dos títulos da CDM e da Emose.

Risco soberano permanece como principal vulnerabilidade

Apesar da estabilidade do sistema financeiro, o Banco de Moçambique alerta que a elevada concentração em títulos do Estado, associada ao crescimento da dívida pública interna e ao financiamento directo junto da banca nacional, incrementa o risco soberano, com potenciais implicações para o risco sistémico e para a estabilidade financeira no médio prazo.

O reduzido dinamismo dos mercados de acções e de obrigações corporativas limita o alargamento das alternativas de financiamento para as empresas, o que, em determinados contextos, poderia contribuir para a redução do custo de financiamento e para uma maior diversificação do risco no sistema financeiro.

No seu conjunto, os dados confirmam que o mercado financeiro moçambicano permanece estável e funcional, mas fortemente dependente do financiamento do Estado. A diversificação do mercado de capitais, o fortalecimento do financiamento privado e o aprofundamento de instrumentos alternativos continuam a figurar entre os principais desafios estruturais para reforçar o papel do sistema financeiro no apoio ao crescimento económico sustentável.