O olhar económico sobre o futuro de Moçambique.

Moçambique mantém estabilidade financeira apesar da pressão da dívida pública

O sistema financeiro moçambicano manteve-se estável e resiliente no primeiro semestre de 2025, registando um crescimento de 1,99%, apesar da pressão do endividamento público e de choques internos e externos. O sector bancário apresentou níveis confortáveis de capitalização e liquidez, enquanto o crédito em incumprimento recuou para 7,85%, embora permaneça acima do referencial internacional. O mercado financeiro continua dominado por títulos do Estado, reforçando a exposição ao risco soberano. Ainda assim, o risco sistémico manteve-se moderado, sustentando a estabilidade macrofinanceira.

15-Dez VERIFICA -03 thumbnail

O sistema financeiro moçambicano manteve-se estável e resiliente no primeiro semestre de 2025, apesar da persistência de choques internos e externos, da pressão crescente do endividamento público e de um contexto internacional marcado por elevada incerteza económica e geopolítica.

No período em análise, o sistema financeiro registou um crescimento acumulado de 1,99%, acelerando face aos 1,60%observados no mesmo período de 2024, sinalizando uma trajectória de recuperação gradual e sustentada da actividade financeira doméstica.

Sector bancário sólido, bem capitalizado e líquido

O sector bancário continuou a apresentar níveis adequados de capitalização, liquidez e rendibilidade. O rácio de solvabilidade global manteve-se confortavelmente acima do mínimo regulamentar, assegurando capacidade para absorver choques e sustentar a actividade de crédito.

A rendibilidade do sector permaneceu positiva, apesar de uma redução dos resultados líquidos face ao período homólogo, explicada sobretudo pelo aumento das imparidades associadas ao crédito. Ainda assim, os rácios de rendibilidade dos activos e dos capitais próprios mantiveram-se em níveis considerados satisfatórios.

Crédito em incumprimento recua, mas permanece acima do referencial internacional

A qualidade dos activos bancários registou melhoria no primeiro semestre do ano. O rácio de crédito em incumprimento reduziu-se para 7,85%, após 9,35% no final de 2024, reflectindo o impacto positivo da normalização gradual das taxas de juro e de uma gestão mais prudente do risco de crédito.

Apesar da evolução favorável, o nível do crédito em incumprimento continua acima do referencial internacionalmente recomendado, mantendo-se como um dos principais pontos de atenção para a estabilidade financeira.

O mercado financeiro nacional continuou fortemente concentrado em títulos do Estado, com as Obrigações do Tesouro a representarem cerca de 86% da capitalização bolsista. Esta configuração evidencia a elevada dependência do mercado interno para o financiamento do Estado e a predominância do risco soberano na estrutura do sistema financeiro.

O recurso intensivo a instrumentos de dívida pública interna contribuiu para o aumento do stock da dívida pública, reforçando a exposição do sector bancário e dos investidores institucionais ao risco do Estado.

Risco sistémico mantém-se em nível moderado

A avaliação global do risco sistémico indicou a manutenção do risco em nível moderado, resultado da estabilidade observada nas componentes de crédito, liquidez, solvência e mercado. O risco soberano permaneceu elevado, influenciado pelo peso da dívida pública e pela forte ligação entre o financiamento do Estado e o sistema financeiro doméstico.

A inflação manteve-se controlada e em níveis moderados, contribuindo para a estabilidade macrofinanceira, enquanto a redução gradual da taxa de juro de referência apoiou a melhoria das condições de financiamento.

Apesar do desempenho positivo do sistema financeiro, persistem vulnerabilidades associadas à pressão do endividamento público, à instabilidade em algumas regiões do país, às tensões económicas internas e aos impactos recorrentes de fenómenos climáticos extremos.

Ainda assim, os indicadores analisados confirmam que o sistema financeiro moçambicano dispõe de capacidade de resistência e adaptação, mantendo-se como um pilar fundamental para a estabilidade macroeconómica, a confiança dos agentes económicos e o suporte à retoma gradual da economia.