O olhar económico sobre o futuro de Moçambique.

“Crises globais exigem novos modelos económicos para países emergentes”, alerta Paulo Portas

Paulo Portas alertou, na Conferência Económica Visão M, que a volatilidade global exige que países emergentes adoptem novos modelos económicos, maior capacidade de interpretação de riscos e visão estratégica de longo prazo. Sublinhou que crises actuais são mais rápidas e assimétricas, que a competição EUA–China moldará a próxima década, e que eventos climáticos extremos podem desencadear a próxima crise global. Defendeu que Moçambique deve reforçar a leitura de sinais de instabilidade para transformar riscos em oportunidades.

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O antigo Vice-Primeiro-Ministro de Portugal, Paulo Portas, alertou esta quinta-feira, em Maputo, que o actual contexto internacional é marcado por um nível de volatilidade e imprevisibilidade sem precedentes, exigindo que países emergentes, como Moçambique, adoptem novos modelos de análise de risco, planeamento estratégico e adaptação económica.

Portas falava na Conferência Económica Visão M, organizada pelo Millennium bim no âmbito dos 30 anos da instituição, destacando que a velocidade das transformações globais reduz drasticamente o tempo disponível para governação e tomada de decisão.

“É um pouco difícil falar do mundo como ele está, porque pode não estar assim logo à tarde. O grau de volatilidade é muito alto e o de imprevisibilidade é superior ao que qualquer agente económico desejaria”, afirmou Paulo Portas.

Crises tornam-se mais rápidas, profundas e assimétricas

Na sua análise, Portas recordou que, nos últimos cinco anos, o mundo viveu crises que rapidamente evoluíram para choques globais, da pandemia da covid-19 à guerra na Ucrânia, passando pelo conflito entre Israel e Hamas.

“As crises hoje em dia escalam rapidamente para crises globais. E serem crises globais não quer dizer que sejam crises simétricas.”

O antigo governante explicou que estes fenómenos afectam países e regiões de forma desigual. A título de exemplo, comparou o comportamento inflacionário recente da Europa, dos Estados Unidos e da China:

“Há dois anos, a Europa tinha inflação de dois dígitos e hoje o problema é a economia anémica. Os Estados Unidos receiam nova subida da inflação. E, na China, o risco é de deflação.”

Navegar na instabilidade será determinante

Paulo Portas defendeu que os países emergentes devem fortalecer a capacidade de antecipação e interpretação de riscos, argumentando que quem souber melhor ler sinais de instabilidade estará mais bem posicionado para identificar oportunidades.

“É preciso aprender a navegar na instabilidade. Quem souber melhor avaliar e antecipar riscos também sabe melhor avaliar e antecipar oportunidades.”

O orador alertou igualmente para o impacto do mundo digital na formulação de políticas públicas:

“Tudo é mais rápido e vertiginoso. Os governos têm menos tempo para pensar.”

Competição estratégica EUA–China moldará a próxima década

Na dimensão geopolítica, Portas sublinhou que a competição entre os Estados Unidos e a China continuará a ser o eixo central da política internacional, condicionando estratégias económicas de países emergentes.

“Vamos viver por muitos anos numa competição feroz entre os Estados Unidos e a China.”

O antigo Vice-Primeiro-Ministro classificou este cenário como uma “bipolaridade imperfeita”, em que uma potência incumbente (EUA) enfrenta uma potência desafiante (China), com impacto duradouro sobre o comércio, as cadeias de valor e o investimento global.

Mudanças climáticas podem desencadear a próxima crise global

Paulo Portas alertou ainda para os riscos crescentes associados aos eventos climáticos extremos, notando que África já conhece bem o impacto de ciclones, cheias e secas severas.

“É possível que a próxima crise global esteja relacionada com eventos climáticos extremos e alterações climáticas.”

Ao concluir, Portas enfatizou que Moçambique, tal como outros mercados emergentes, deve combinar respostas imediatas com uma visão económica que privilegie o planeamento de médio e longo prazo.

“Vence quem tiver, ao lado das decisões urgentes, capacidade de pensar a médio e longo prazo.”

A intervenção de Paulo Portas encerrou um dos painéis mais marcantes da Conferência Económica Visão M, num momento em que Moçambique procura reforçar a resiliência económica e posicionar-se de forma estratégica num mundo cada vez mais imprevisível.